As duas torcidas rivais faziam o maior barulho na Arena das Palavras. Era a disputa dos antônimos, palavras com sentido oposto.
Então fez-se um silêncio. No centro da arena, os dois "faladores de antônimos" se posicionaram: um à direita, outro à esquerda. Um era magro, outro era gordo. Ganhava quem dissesse mais palavras opostas.
O juiz ergueu a mão. Começou!
- Feio! Bonito!
- Certo! Errado!
- Achar! Perder!
- Entrada! Saída!
- Plácido! Doidivanas!
Aplausos. Era uma grande partida, uma disputa notável.
Na torcida, Andréa estava alegre, Marcela estava contente, Zeca estava satisfeito, Beto estava risonho. Mas dava no mesmo. Até porque, na empolgação, a turma de cá pulava, e a de lá saltava. Era a mesmíssima coisa: uns berravam, outros gritavam, alguns ainda vociferavam. A torcida estava cheia de sinônimos, palavras que têm o mesmo significado (veja as destacadas).
Mas nas rodinhas da Arena das Palavras, outras conversas aconteciam. Algumas falavam de homônimos, outras em sentido figurado. Quer ouvir o que elas dizem?
Duas meninas trocavam impressões sobre a disputa.
- Esses faladores são uns gatinhos, não é ?
O Pedro, que ouvia a conversa delas, resolveu fazer graça:
- Que nada! Não estão vendo que eles são homens? Não são gatos!
- Gatinho é modo de dizer, seu tonto. É sentido figurado - explicou uma das meninas, piscando para a outra. - Quer dizer que eles são fofos como gatinhos.
- Eu não estou tonto! Estou me sentindo bem, até! - Pedro respondeu.
A primeira menina aceitou a provocação:
- Você pode estar saudável, mas se comporta como se tivesse batido a cabeça e ficado confuso! Leva tudo ao pé-da-letra!
Pedro resolveu dar uma volta para se distrair. Viu um garoto da mesma idade e resolveu ficar seu amigo.
- Oi, meu nome é Pedro, e o seu?
- Eu também me chamo Pedro. Nós somos homônimos. Temos o mesmo nome.
- Posso me sentar nesse banco? - o Pedro primeiro perguntou.
- Se sentar no banco? Banco é para tirar, transferir ou depositar dinheiro! - espantou-se o Pedro segundo.
O primeiro Pedro abriu a boca e arregalou os olhos. Não tinha entendido nada.
- Estou brincando - o segundo Pedro disse para tranquilizá-lo. - É só para você ver como dois seres diferentes podem ter o mesmo nome, como a gente.
Quando Tomás Nota estava subindo no Carrossel da Linguagem, um garoto chamou sua atenção:
- Seu cadalço está desamarrado. Outro dia minha irmã estava andando assim, caiu e machucou a boca dela. Meu avô até falou: "É preciso circunspecção para não ter de pernoitar no nosocômio". Aí nós riu.
O gerente do carrossel veio com uma colher e um vidrinho onde estava escrito: "Xarope de Gramática".
- Que horror! Este menino está cheio de vícios de linguagem! Assim não pode brincar no carrossel.
O homem fez o garoto engolir o xarope, e continuou:
- "Cadalço" é um barbarismo! Ou seja, escrever ou falar desrespeitando as normas da Gramática. O certo é cadarço. Ele também está com cacofonia: "boca dela" tem um som que a gente confunde com "cadela". Parece que a irmã dele machucou a cadela, e não sua boca.
Não dava descanso, esse gerente:
- E o solecismo, então? "Nós riu"... O verbo tem que concordar com o sujeito. Se "Nós" é a 1ª pessoa do plural, o verbo tem que estar no plural também: Nós rimos.
E ainda arrematou, enquanto o garoto e Tomás Nota pulavam no carrossel:
- Aliás, seu avô também precisava de um xaropinho de Gramática. Por que dizer "é preciso circunspecção para não ter de pernoitar no nosocômio"? Assim fica muito mais claro: é preciso cuidado para não passar a noite no hospital. Que preciosismo! Isso é falar como deputado.
Havia um riso preso entre os lábios de Tomás Nota. Ele gritou, quando o carrossel começou a rodar:
- Carrossel é barbarismo!
E explicou para o garoto que tomou xarope:
- Como carrossel é uma palavra francesa, na verdade, usá-la como se fosse da língua portuguesa é um barbarismo.
Garoto esperto, este Tomás Nota.
Vícios de linguagem são erros gramaticais muito praticados, como o barbarismo, a cacofonia, o solecismo e o preciosismo.
Dizem que a Fonte das Figuras de Sintaxe é um lugar mágico.
É que às vezes surgem criaturas estranhas da água que jorra da fonte.
E ali estava o nosso amigo Tomás Nota bebendo da fonte, quando tomou um supersusto: pelo reflexo da água, viu que quatro Figuras de Sintaxe estavam atrás dele.
E a primeira falou:
- Se quiser me chamar um dia, Elipse. Eu faço sumir palavras de uma frase, as que não fazem falta.
(Sem a Elipse, a frase ficaria assim: "Se quiser me chamar um dia, meu nome é Elipse. Eu faço sumir palavras de uma frase, mas apenas as palavras que não fazem falta")
Ao seu lado estava o Pleonasmo:
- Queria vê-lo com meus próprios olhos! A mim já me haviam informado que você estava passeando na Cidade da Gramática, mas queria vê-lo pessoalmente. Muito prazer, Pleonasmo é como me chamam. Sou o completo oposto da minha irmã Elipse: vivo colocando palavras desnecessárias nas frases, só para tornar o bonito mais belo!
Anjo Aurélio explica: O pleonasmo deve ser discreto e exato. Se repete sem que tenha um propósito ou interesse, torna-se defeito: elo de ligação, certeza absoluta, prefeitura municipal, fato real.
Então foi a vez do Anacoluto:
- Falar, escrever, muita gente sabe falar e escrever. Mas as Figuras de Sintaxe, somos nós que fazemos as frases ficarem mais bonitas. Eu, Anacoluto, coloco palavras no início das frases que não têm relação com o fim. Fica chique, não é?
Por fim, a bela Silepse apresentou-se:
- As Figuras de Sintaxe estamos muito felizes em conhecê-lo. O povo nos chama quando querem falar ou escrever de um modo mais sofisticado. Eu, por exemplo, crio concordâncias diferentes do normal. A isso chamam Silepse.
(Se ela fosse falar do modo mais comum, seria assim: "As Figuras de Sintaxe estão muito felizes em conhecê-lo. O povo nos chama quando quer falar ou escrever de um modo mais sofisticado" . Do jeito dela fica mais bacana, você não acha?)
Alô de onde fala é do quiosque eu queria fazer um pedido é o seguinte duas latas de ervilha um pacote de macarrão duas caixas de polpa de tomate e não molho pronto e além disso gostaria de outra coisa que viesse rápido.
- Minha senhora, aqui é o Quiosque da Pontuação. Não temos macarrão, mas temos vírgulas, pontos de exclamação, pontos de interrogação. Aliás, itens de que a senhora parece estar precisando muito...
Na hora de escrever, precisamos de alguns sinais para imitar o jeito que nós falamos, pois existe o tom de pergunta, há as pausas pequenas, as maiores... Por isso inventaram os sinais de pontuação, itens que não faltam neste quiosque:
! Ponto de exclamação usado para indicar dor, alegria, espanto, admiração, surpresa ou indignação
? Ponto de interrogação usado para fazer perguntas
, Vírgula nas datas, endereços, enumerações, chamamentos e explicações
; Ponto-e-vírgula para indicar uma pausa maior que a da vírgula
. Ponto final para indicar o término da frase e nas abreviaturas
: Dois-pontos para indicar uma explicação, uma lista, um resumo, exemplo, observação, ou que alguém vai falar
- Travessão para indicar que alguém está falando e destacar uma palavra ou oração
( ) Parênteses para separar uma explicação no meio da frase, também são usados na matemática
... Reticências para indicar dúvida, incerteza ou suspensão do pensamento
Com a pontuação no devido lugar, a frase ficou assim:
- Alô! De onde fala, é do quiosque? Eu queria fazer um pedido. É o seguinte: duas latas de ervilha, um pacote de macarrão, duas caixas de polpa de tomate (e não molho pronto); além disso, gostaria de outra coisa... que viesse rápido!
" " Aspas
Você já deve ter visto uma palavra separada por "pingos". Os "pingos" são as aspas, que a gente usa para dizer que a palavra destacada não é a mais adequada para o que se quer dizer. Como "pingos" em vez de aspas, que é o nome correto.
Também usamos aspas no começo e no final da fala de alguém: "Eu quero suco de laranja", ela disse.
Muita gente vem comprar aspas no quiosque para mostrar que retirou um trecho de outro texto: "O tempo passou na janela e só Carolina não viu" é o primeiro verso de Carolina, canção de Chico Buarque.
Repare que as aspas sempre vêm em duas duplas: no começo e no fim dos termos sinalizados. Também são usadas em palavras estrangeiras, em gírias, em nomes de livros, filmes, músicas, jornais e revistas, e para indicar ironia.
Maiúsculas/ Minúsculas
Um viveiro normalmente tem um monte de plantas e flores. O Viveiro da Ortografia é diferente. Tem uma exposição de letras: as minúsculas, que são menores...
a b c d e f g h i j k l m n o p q r s t u v w x y z
...e as maiúsculas, grandonas.
A B C D E F G H I J K L M N O P Q R S T U V W X Y Z
Nos canteiros do viveiro, em vez de tufos de plantas, há tufos de letras. Cada um forma uma palavra: azul, bonde, zarolho, correr. São palavras que só têm letras minúsculas.
Mas outros canteiros formam nomes próprios, que podem ser de uma pessoa, um bicho, um lugar: Helena, Ximbico (nome do meu coelho), Brasil. Nos nomes próprios, a primeira letra é maiúscula.
Abreviatura
Outros canteiros são mais esquisitos. Não formam palavras inteiras. Um deles tem tufos: PB. Sabe o que aconteceu? O jardineiro ficou preguiçoso e decidiu fazer uma abreviatura, plantando só algumas letras da palavra. PB, na verdade, é abreviatura de Paraíba! Abreviatura é a representação de uma palavra através de suas sílabas ou letras. Tem mais um do mesmo tipo: V. Sa.; isso porque o canteiro é pequeno e não cabem nele todas as letras de "Vossa Senhoria".
Olha ali outro tufo. É o vocábulo FOTO, uma abreviação da palavra fotografia. Quando reduzimos uma palavra, mas o seu sentido permanece igual, temos a abreviação. CINEMA, para cinematográfico, QUILO, para quilograma, e por aí vai...
Mesmo com um canteiro apertadinho, o jardineiro plantou uma infinidade de espécies. Para caber tudo ali, o jeito foi plantar um montão de siglas: CEP, Sesc, FGTS, Detran, Embratel... que significam respectivamente: Cadastro de Pessoa Física, Serviço Social do Comércio, Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, Departamento Estadual de Trânsito e Empresa Brasileira de Telecomunicações.
Acento gráfico
Chapéu, buquê, àquela são palavras especiais, pois têm um sinal em cima de uma vogal. Esse sinal se chama acento gráfico, e serve para nos lembrar qual é a parte da palavra que temos de dizer com mais força.
Á é í ó ú: Acento agudo
 ê ô: Acento circunflexo
À: Acento grave
A vogal que está embaixo do acento agudo é falada com a boca bem aberta: Zé, maracujá, também.
A vogal sob o acento circunflexo tem um som mais fechado: ônibus, câmara, pênalti.
O acento grave serve para indicar a crase: à, àquelas
Dígrafo/Homófono/Homógrafo
Na hora de escrever, quem forma as palavras? As letras.
E na hora de falar,quem forma as palavras? Os fonemas.
Cada som que nós falamos é um fonema.
Então, letra é diferente de fonema.
Geralmente, cada letra sozinha tem um som, mas às vezes acontece o dígrafo.
Preste atenção: quantas letras tem a palavra arroz? Cinco.
Mas na hora de falar, quantos sons saem da nossa boca? Quatro!
Isso acontece porque dois "r" juntos têm só um som.
Também são dígrafos o "gu" e o qu (antes de "e" e "i"), e o "ch" (que tem som de x).
Veja só: Guilherme, guerra, quero, aquilo, chato, achei.
Há até algumas palavras que escrevemos de jeitos diferentes, que têm significados diferentes, mas o mesmíssimo som.
concerto (evento musical)
conserto (reparo)
Essas palavras são chamadas de homófonas.
Por outro lado, há palavras que são iguais na hora de escrever, mas querem dizer coisas diferentes. São os homógrafos:
são (do verbo ser)
são (forma reduzida de santo)
luta (substantivo)
luta (do verbo lutar)
Til/Trema
Outras palavras têm sinais em cima das vogais só para mostrar que existe um modo especial de dizê-las.
Esses sinais são o til (que parece uma minhoca em cima do "a") e o trema (que são dois pinguinhos em cima do "u") .
Ã: til
Ü: trema
Em "órgão", por exemplo, o acento agudo sobre o "o" mostra que essa é a parte mais forte da palavra. E o til está em cima do "a" para mostrar que a gente tem de falar essa parte com o nariz...
Sim, com o nariz!!!
A gente não fala só com a boca. Experimente dizer "pão, cão, são, chão"; repare como sai um pouquinho de ar do nariz. Isso não acontece quando você fala "pau, cal, sal, tchau"- aí, realmente, todo o ar sai pela boca.
É por isso que quem está com nariz entupido fala de um jeito engraçado!
O trema serve para ajudar a gente na pronúncia, também. Observe o som do "u" em pingüim. Normalmente, o "gu" forma um dígrafo, se tem um "i" ou um "e" logo em seguida, como acabamos de ver; o mesmo se passa com "qu". Ou seja, o "u" perde seu som. Mas há casos especiais em que o "u" é pronunciado, como em tranqüilo, agüente.
Cedilha/Apóstrofo/Hífen
Uma criatura muito interessante do Viveiro da Ortografia é a cedilha. Você já deve tê-la visto em alguma praça, embora ela não seja flor.
A cedilha é aquele sinal embaixo do c: na praça, na caça, em caçador, calçada, açaí...
Quando o c vem com cedilha, ganha som de s.
Experimento: vamos tirar a cedilha do c em acaí, praca, cacador, calcada. Que caca! O c volta ao normal.
Já reparou que, depois da chuva ou do regador, as plantas ficam com pingos d'água em cima? E por que não ficam com pingos de água?
É que existe o apóstrofo ( ' ) para mostrar que a gente tirou uma vogal da palavra. Em vez de copo de água, copo d'água. Em vez de caixas de água, caixas d'água.
Como vimos, no Viveiro da Ortografia não tem flor. Mas tem beija-flor. Não tem chuva, mas tem guarda-chuva. Se você reparou, o que tem de montão no Viveiro da Ortografia é hífen ( - ): guardá-lo, falar-lhe, ferir-se. O hífen também aparece no meio dos telefones (9999-9999) e das datas de nascimento (30-02-2021), e também para separar sílabas e unir pronomes a verbos.
quinta-feira, 24 de agosto de 2023
Viagem à Gramática - Parque Gramatical
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